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Séries

Crítica: Atlanta – 1ª Temporada

7 de Março de 2017 - 15:02 - Tiago Soares

Entre a comédia e a ironia social


Há alguns anos, Donald Glover merecia um espaço na nossa coluna “Fique de Olho“. Agora, o jovem ator já é uma realidade e ficou mundialmente conhecido porque estará no novo filme do Homem-Aranha, será Simba no live action do Rei Leão e interpretará o jovem Lando Calrissian no filme do Han Solo em 2018. Antes disso Donald já havia sido roteirista da série 30 Rock e estrelado Comunnity, do qual saiu para trabalhar no seu novo disco “Because The Internet“. Sim, Glover também faz parte da cena hip-hop sob o nome de Childish Gambino.

Em Atlanta, Donald – que é criador, diretor, produtor e estrela da série – resolveu reunir as duas coisas que mais ama e entregar uma comédia de qualidade, recheada de ironia social e muita boa música. Utilizando a cidade que trouxe nomes importante do rap como T.I e Ludacris, Atlanta ganhou o público e a critica, vencendo prêmios do sindicato de diretores e produtores, além de dois Globos de Ouro para melhor série comédia e melhor ator para Donald Glover.

Altlanta conta a história de  Earnest ‘Earn’ Marks (Glover), que saiu da Universidade de Princeton e não se sabe muito bem o porquê. Ele vive em uma relação nada convencional com a mãe de sua filha, Van (Zazie Beetz), e vê uma oportunidade quando seu primo Alfred Miles (Brian Tyree Henry) começa a fazer um considerável sucesso como rapper sob o nome de Paper Boi. Earn resolve ser o empresário de Alfred, tirando seu amigo maluco Darius (Lakeith Stanfield) da jogada. A série praticamente gira em torno desses quatro personagens, e todos entregam atuações acima da média.

Glover que ao lado de Hiro Murai dirige e escreve a maioria dos episódios, foca em sua história principal pelo menos até a metade da produção. São 10 episódios, sendo que os cinco primeiros inteiram você sobre os personagens e os desenvolve de maneira pontual. Glover é a estrela da série, mas não toma o posto para si, deixando todos brilharem em igualdade. Sua companheira Van com a qual vive uma relação digamos “confusa”, tem um episódio inteiro para ela mostrar todas as frustrações que vive e que no fundo ainda ama Earn. Darius tem o seu auge no episódio 4 e no seguinte, mostrando certa inocência e malandragem sob medida, algo necessário num mundo que ainda respira preconceito. Paper Boi faz o rapper agressivo, que não liga pro glamour que vem com a fama, questionando muitas vezes as decisões de Earn como empresário e pondo o mesmo em várias “saias justas”.

A mão de Donald Glover na direção pesa, desde a fotografia escura e lavada até a permanência da câmera no rosto dos personagens, causando incômodo. A trilha sonora que vai de OJ Da Juiceman Lee Fields à Bill Whiters, cria uma atmosfera perfeita, trazendo também participações especias da música como o grupo Migos e aparições mínimas de Lloyd e Lil’Zane. Diferentemente de Empire (outra série que foco no cenário hip-hop), Atlanta não deseja mostrar o lado glamouroso, focando especificamente nos bastidores do hip-hop de várzea, com Earn entregando Cd’s em rádios, Paper Boi querendo apenas comer seu sanduíche em paz e Darius comprando o seu bagulho.

Cercada de crítica social, Atlanta vai muito além da música. A partir do episódio 6, Glover parece que (com o perdão da palavra) liga o foda-se e foca em muitas questões, como racismo, transfobia, preconceito, crises de identidade, brutalidade policial e relacionamento. No episódio 7 – o melhor na minha humildade opinião -, Atlanta aposta suas fichas em um canal fictício e exclusivo para negros, aonde Paper Boi participa de um talk show hilário, por ter chamado uma transsexual de “vadia”. A partir daí todo o programa se desenrola em debates incríveis, com a presença de doutores “especialistas” no assunto, gerando um VT hilário sobre um homem negro que diz ser branco.

Os comerciais da rede B.A.N (Black American Network) também são incríveis, sendo todos estrelados por negros. Em um deles, um jovem negro faz o Lobo Mau e é apreendido brutalmente por um policial branco, deixando as crianças que vêem aquele ato sem entender nada. Deste episódio em diante, a crítica social dá lugar ao nonsense (e isso não é uma desvantagem), com carros invisíveis atropelando pessoas, críticas sociais ao armamento americano, celebridades abusivas (como o caso da figura do Justin Bieber negro) e festas em homenagens a abolição da escravatura. Vários assuntos que são levados para um lado cômico, mas que são sérios quando vistos num todo.

Donald Glover mostra toda sua genialidade ao não focar sua série em um lado apenas: ele mostra que em todos os assuntos existe dualidade e possibilidades para um discussão sadia, longe de toda a violência e ódio disseminado, principalmente na internet. A única lamentação é que devido a agenda cheia do rapaz, Atlanta só volta com sua segunda temporada em 2018. Por isso degustem bem cada episódio dessa série maravilhosa.