AODISSEIA
Filmes

Crítica: Aquarius

9 de setembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

O poder da memória


241687Durante a coletiva de impresa realizada há algumas semanas, o diretor Kleber Mendonça Filho disse que as pessoas só classificam como político aqueles filmes que se passam em centro governamentais, mostrando as decisões que podem influenciar a vida de milhares de pessoas. Certamente Aquarius não é um desses longas, mas seu brilhante estudo sobre a memória incomoda, hipnotiza e relembra o público que as pessoas comuns tem o poder de mudar o mundo, caso queiram.

Talvez seja justamente isso que torne a história de Clara (Sônia Braga) tão “perigosa” para a nossa tão alienada sociedade, afinal o brasileiro parece estar desacostumado a entrar em uma sala do cinema para refletir sobre o seu ambiente social ou simplesmente ver uma mulher forte, inteligente e decidida falar que não vai sair do apartamento onde viveu quase a vida inteira. Disposta a tudo, Clara não vai abrir mão de bater de frente com a construtora antes de permitir que a revitalização destrua um dos edifícios mais importantes da região, independente de manterem ou não o nome do mesmo.

[Aviso: O filme possui muitas cenas que merecem ser comentadas, logo esse texto pode ter alguns vários spoilers.]

Mas calma que esse é apenas o ponto de partida para o pernambucano Kleber Mendonça Filho (responsável pelo maravilhoso O Som ao Redor) iniciar seu estudo sobre esse ambiente social, onde vivemos cercados pela violência, pela ganância, pelo avanço tecnológico que despreza o antigo e por uma vontade quase cega de andar para frente sem ligar para quem está no caminho. No centro de tudo isso, ele habilmente coloca a memória sob um ponto de vista verdadeiramente nostálgico, usando truques de roteiro, fotos do passado, vinis, referências cinematográficas e até uma cômoda presente no apartamento para reverenciar uma época que já passou e guiar o espectador por todas essas discussões.

E a melhor parte é que o roteiro não perde o ritmo em nenhum momento, apesar de manter um desenvolvimento lento e cuidadoso durante toda a projeção. Mendonça Filho evita saídas fáceis de roteiro, explicações óbvias demais e a cada vez mais comum atitude de “falar mais do que mostrar”, obrigando o público a ficar atento a tudo o que acontece nos diálogos e até nos cantos da tela. O melhor exemplo dessa tática talvez esteja logo no início da projeção, quando marido de Clara fala sobre como sua mulher passou por um tratamento complicado. Ele não fala o nome da doença, mas a falta de cabelo personagem já é o suficiente para estabelecer o câncer. Uns 20 minutos depois, um momento simples como tomar banho finaliza essa explicação e choca a maior parte dos espectadores ao expôr sem pudor as marcas da cirurgia em um dos seios.

Outra sacada maravilhosa está na forma como a história é dividida em três capítulos, permitindo que o roteiro passe por vários gêneros cinematográficos diferentes, explore situações do cotidiano com uma naturalidade única e crie momentos simbólicos entre os personagens, como a passagem de bastão representada por uma simples troca de olhares entre Clara e Júlia (Julia Bernat). Além disso, os títulos dos capítulos contribuem para ambientação das partes, culminando na criação de uma tensão absurda que preenche a última parte até tudo ser subvertido em uma maravilhosa metáfora envolvendo cupins e câncer.

Tudo conduzido pela direção de uma maneira quase documental que trabalha com uma naturalidade inerente ao dia-a-dia, seguindo o compasso de uma trilha sonora intensa e muito mais do que perfeita. É impossível não elogiar a forma como Mendonça Filho posiciona as músicas dentro da trama com o objetivo de ajudar a contar a história, representar as emoções de uma protagonista que trabalhou como crítica musical ou simplesmente trabalhar levar o público a uma viagem nostálgica ao lado de Roberto Carlos, Taiguara, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Reginaldo Rossi, Queen e Heitor Villa-Lobos. Ao contrário do que acontece, por exemplo, em Esquadrão Suicida, cada uma das canções escolhidas entra e sai de cena na hora certa e acaba virando uma peça essencial para a dinâmica do filme.

Por fim, mas não menos importante, essa mistura toda se torna o palco perfeito para Sônia Braga (Dona Flor e seus Dois Maridos) voltar ao Brasil com grande estilo. Ela está sensual, divina, maravilhosa e forte, conduzindo o filme com um vigor inexplicável e carregando o filme nas costas na maioria das cenas. Os personagens que a cercam também possuem sua importância para o andamento da história, mas nem todos conseguem o destaque de Humberto Carrão (Cheias de Charme: O Filme) e Maeve Jinkings (Boi Neon) quando batem de frente com Clara.

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O resultado só poderia ser uma obra de arte cheia de tensão, emoção e nostalgia que explora temas extremamente complexos com muito cuidado e beleza. Um inesquecível estudo sobre a memória que, mesmo marcado pela batida das músicas brasileiras, poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. Um roteiro magnífico que marca o retorno retumbante de Sônia Braga e estabelece Kleber Mendonça Filho como um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro ao nos presentear com um daqueles longas que merecem ser vistos e revistos milhares de vezes. Então não perca tempo e vá logo assistir Aquarius!


OBS 1: A trilha sonora completa do filme pode ser conferida aqui.

OBS 2: Aquarius ganhou muito reconhecimento após o protesto contra o impeachment realizado em Cannes pela equipe. Isso resultou em uma questionável classificação etária de 18 anos e na retirada de outros longas da candidatura ao Oscar, mas o filme não merece ser analisado longamente sob essa ótica. Talvez em outro momento, nós comentemos isso de forma mais profunda…


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