AODISSEIA
Filmes

Crítica: Aliados

15 de Fevereiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Cinquenta tons de espionagem


Aliados chamou a atenção do mundo quando aproveitou a separação do casal “Brangelina” para se auto divulgar, liberando no mesmo dia uma pequena cena de sexo entre os protagonistas do filme. A ideia de ser uma espécie de Sr. e Sra. Smith de guerra e mais voltado para a tensão pareceu ter algum potencial, mas o desenvolvimento pavoroso do roteiro e a insistência em um clima sexual artificial fazem com que tudo vá por água abaixo.

Max e Marianne são dois espiões que nunca se viram e precisam forjar um casamento para assassinar um diplomata alemão em Casablanca, Marrocos. A missão é bem sucedida, eles se apaixonam, casam e criam sua filha em Londres. Algum tempo depois, Max é informado que sua esposa será investigada como uma possível espiã alemã, enquanto ele precisa enganá-la e estar pronto para assassinar a mulher que ama, no caso de confirmação das suspeitas.

A direção de Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro) compreende as pretensões de Aliados e, na medida do possível, entrega uma história visualmente rica e consistente. E nós não poderíamos esperar nada menos do que ótimos trabalhos de fotografia, design de produção e trilha sonora de profissionais que já estiveram envolvidas com outros clássicos, como Forrest Gump e Náufrago. Os cenários marroquinos remetem ao longa da década de 40 e a recriação dos objetos de época passam verdade, enquanto a câmera passeia com suavidade na hora apresentar uma situação com poucos planos ou utiliza os relógios e o próprio tempo se esgotando como parte essencial na construção da tensão em cenas pontuais.

Por outro lado, a tensão que deveria crescer do contexto da própria guerra ou da investigação no terceiro ato é completamente desperdiçada pelo roteiro de Steven Knight (Senhores do Crime). O texto demora uma eternidade para chegar nos momentos de conflito que realmente interessam, as coincidências simplesmente brotam para resolver alguns dilemas e os diálogos que não parecem naturais para personagens daquela época. Isso sem contar que algumas regras são estabelecidas pra forçar a construção do suspense quando podem ser quebradas com uma simples ordem superior durante o clímax. Em outras palavras, tudo soa artificial demais para sustentar o longa.

Pra piorar, Aliados consegue extrapolar todos os níveis de cafonice quando volta todas as suas atenções para a tal tensão sexual entre os protagonistas. Algumas cenas simplesmente ignoram a vergonha alheia e parecem ter saído diretamente de Cinquenta Tons de Cinza, alguma continuação de Emmanuelle ou outro soft porn qualquer que passaria no Multishow depois da meia-noite. Eu juro – por tudo que é mais sagrado – que o filme aposta em piadas que relacionam pênis com travas de arma e na até na “clássica” sacada do homem que resolve algo urgente no telefone e transa ao mesmo tempo sem poder extravasar sua excitação. Não tenho nada contra quem assiste e acredito que essas cenas certamente tenham o seu valor dentro de um subgênero específico, mas parecem completamente fora do lugar aqui.

Assim como acontece na estrutura do roteiro, a artificialidade quebra a tensão, atrapalha o desenrolar da história e, automaticamente, atrapalha o elenco. Brad Pitt (Bastardos Inglórios) e Marion Cotillard (Macbeth – Ambição e Guerra) possuem beleza, química e sex appeal de sobra, mas ambos parecem estar totalmente desconfortáveis com seus papéis e não conseguem fazer nenhum milagre sem conteúdo para trabalhar. Ele, inclusive, parece estar tão incomodado que transmite o desconforto para o personagem e tira a credibilidade desse espião “renomado” que – teoricamente – deveria ter mais habilidade de improviso durante as missões.

Todos os problemas vão se misturando e minando tudo o que poderia ser tornar um mérito do longa, incluindo o uso sofrível da computação gráfica em alguns momentos. O ritmo até funciona no final das contas e as cenas de ação possuem seus próprios valores graças ao trabalho de Robert Zemeckis, porém a tal da artificialidade e os diálogos horrorosos impedem que o público crie conexões emocionais com os personagens e destroem um final que, em teoria, poderia ser doloroso ou levemente emocionante. Aliados acaba ficando dividido entre um soft porn cafona e um filme de espionagem simplesmente mediano que poderia ser conferido no retorno do Cine Band Privê.