AODISSEIA
Filmes

Crítica: Águas Rasas

30 de agosto de 2016 - 17:00 - Flávio Pizzol

O melhor filme de tubarão desde 1975


592714Podem esquecer as moreias, águas-vivas, piranhas, sereias, lulas-vampiras (sim, elas existem), pescadores violentos ou qualquer animal presente nos oceanos, porque, graças ao mestre Steven Spielberg, o maior vilão dos sete mares ainda é o tubarão. Com dentes afiados e ataques mortais, a criatura que dava nome ao filme de 1975 colocou medo em muita gente, gravou seu nome na história do cinema e não teve nenhum adversário de qualidade desde seu lançamento. Águas Rasas escorrega em pequenos aspectos, mas traz de volta o desespero e a tensão, se tornando o segundo melhor filme de tubarão de todos os tempos.

Para alcançar esse posto, o roteiro abre mão de qualquer extravagância para assumir uma premissa acertadamente simples. Nancy (Blake Lively) é uma jovem estudante de medicina que decide curar um luto recente em uma praia deserta, onde sua mãe descobriu a primeira gravidez. O problema é que ela é atacada por um tubarão muito inteligente e fica presa em um coral enquanto a elevação da maré vai acabando com seu tempo.

O texto de Anthony Jaswinski determina tudo o que o público precisa saber sobre a protagonista em poucos minutos, fazendo bom uso da tecnologia para apresentar as redes sociais e os poucos diálogos sem gerar longas explicações. Depois que as principais características e motivações de Nancy foram devidamente apresentadas, o filme simplesmente te leva para o alto-mar e transforma todas as situações em fontes genuínas de tensão, brincando com a percepção do espectador e aproveitando, principalmente, a inteligência da personagem.

Ela sabe que precisa lutar para resolver os seus problemas e, apesar do desespero evidente, usa a determinação e a experiência como surfista para calcular rotas e vencer cada um dos seus obstáculos de forma bem realista, como se fossem fases de um game. O principal problema do filme é que a maior parte desses aspectos são simplesmente abandonados quando ela precisa enfrentar o grande chefão. Ela até monta um plano e usa a cabeça, mas a conclusão cai na armadilha do nonsense, aposta em coincidências absurdas e não possui nenhuma lógica em relação às atitudes que o próprio animal tinha tomado até então.

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Apesar desses poblemas, o diretor espanhol Jaume Collet-Serra sabe como criar momentos de extrema tensão em espaços relativamente pequenos e prende o espectador na cadeira durante toda a projeção, aproveitando vários elementos já utilizados em A Órfã, A Casa de Cera e Sem Escalas. Sua câmera passeia pelo cenário com muita leveza, as ondas ajudam a movimentar a câmera em vários momentos de tensão e as imagens aéreas entram na hora certa para mostrar toda a inferioridade da protagonista diante da ameaça. Tudo muito bem acompanhado pela edição segura de Joel Negron (Dois Caras Legais) e ótima trilha sonora de Marco Beltrami (Ben-Hur).

Dentro de tudo isso, Collet-Serra deixa claro que amadureceu sua linguagem cinematográfica, usando dois elementos que me chamaram muita atenção. O primeiro está na forma como ele explora a sensualidade da protagonista no início para, minutos depois, mostrar como a total falta de vaidade nos momentos de desespero, enquanto o segundo aparece constantemente em algumas sacadas sobre a utilização dos efeitos sonoros nos ataques do tubarão e nos vários momentos que a montagem intercala cenas na superfície e embaixo d’água. Inclusive, ele trabalha com a imaginação do espectador de forma genial ao simplesmente focar a câmera na reação de Nancy quando o tubarão ataca um outro banhista.

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E, logicamente, ele também faz um ótimo trabalho de direção com a atriz Blake Lively. Com exceção dos animais desenvolvidos em computação gráfica e da decisiva participação do também espanhol Óscar Jaenada, ela é a protagonista absoluta do filme, tem ótima presença e entrega um dos melhores trabalhos da carreira ao carregar um filme inteiro nas costas. Recebe uma ajudinha da gaivota em um bem-vindo momento da alívio cômico e pronto.

O resultado é, como todos já terem ter percebido, praticamente perfeito. O roteiro cumpre sua função com louvor, a direção encontra movimentos de câmera e ideias que funcionam muito bem, a tensão é constante do início ao fim e o desespero continua incomodando o espectador mesmo depois dos créditos. Claro que aquele final encerra a produção com um gostinho um pouco amargo, mas, diante das centenas de filmes marinhos que passaram longe de acertar, Águas Rasas vale o ingresso e pode sim ser considerado o melhor filme de tubarão desde que Spielberg mudou o cinema.


OBS 1: Alguém sabia que Jaume Collet-Serra é o diretor de Gol II: Vivendo um Sonho? O filme é mediano e não tem nada a ver com os trabalhos recentes do diretor, mas fica aí uma informação que eu não tinha percebido.

OBS 2: Fiquem com essa imagem do tubarão na surdina e tomem cuidado ao entrar na água, crianças!

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