AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Criada

12 de janeiro de 2017 - 11:00 - Tiago Soares

Diretor de Oldboy volta à Coréia em nova trama de vingança com poder feminino


002670-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxQuem conferiu a chamada “Trilogia da Vingança” (ou em especial o filme mais famoso dela: Oldboy) de Park Chan-Wook sabe que o diretor trabalha sempre querendo causar uma espécie de choque no espectador. Quem não se lembra da história com reviravoltas mirabolantes e um plano sequência que inspirou inúmeros filmes e séries recentes como Demolidor e Narcos? Mais do que isso, o diretor coreano trazia personagens fortes e, mesmo fazendo tudo isso em sua língua natal, conseguiu enorme sucesso.

Aqui não é diferente. Em A Criada, o diretor traz toda sua estética até a Coréia do Sul nos anos 1930, durante a ocupação japonesa, para contar a história de Sook-Hee (Kim Tae-ri) uma jovem com grandes pretensões, mas sem grandes oportunidades, que quer sair do status em que vive. Para isso uni-se ao vigarista Count Fujiwara (Jung-woo Ha), e se torna criada de Lady Hideko (Min-hee Kim), que está prometida ao tio (Jin-woong Jo), para que o mesmo possa ficar com toda sua herança. Fujiwara infiltra-se em seu meio e planeja ficar com o dinheiro pra si, casando-se com Hideko e colocando Sook-He como sua parceira.

Ao longo de uma trama cheia de mistérios e que dura 155 minutos (isto é tudo que você precisa saber, e indico até que não leia além do que isso sobre o filme), o roteiro evolui de forma magnífica. Com um primeiro ato praticamente impecável, o desenvolvimento dos personagens é de certa forma misturada com a trilha sonora de Yeong-wook Jo, em notas tímidas quando confronta a timidez aparente de Hideko, e mais alteradas quanto a sagacidade de Sook-Hee. A fotografia tem um primeiro momento em tons pastel e é bem escura principalmente dentro da casa de Hideko, até mesmo nas partes em que todos os personagens parecem bem, como em uma tórrida cena de sexo que lembra muito Azul é a Cor Mais Quente.

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Park Chan-Wook abusa de planos abertos, seguidos de planos detalhes no rosto das lindas atrizes coreanas, e acaba explorando seus belos corpos em cenas magníficas. Com um fim de primeiro ato impactante em que a premissa apresentada logo acima é completamente desfeita, o roteiro do próprio Park – em parceria com Seo-Kyung Chung e baseado na obra de Sarah Waters – nos dá um tiro no peito e uma aula de cinema, apresentando um segundo momento quase no mesmo nível ou superior. Tudo que você viu na primeira parte da produção, era mais do que uma farsa, e temos uma espécie de gigantesco flashback, tanto do passado de Hideko, como a sua visão em relação a todo o primeiro ato. É um jogo de câmera e uma certa brincadeira com perspectivas que beiram à loucura.

O roteiro merece mais um parágrafo pelas simbologias apresentadas referentes ao passado. Tudo é explicado de forma redonda e nos mostra respostas de perguntas que sequer tínhamos feito. Sabemos porque cada personagem é daquele jeito e age daquela forma, além de mostrar mais do tio de Hideko em uma espécie de ato repugnante, deixando o filme atual e rendendo uma mistura de planos sequências em um cena emblemática de revolta com Sook-Hee, misturada com o olhar de amor de Hideko.

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Uma das maiores vantagens de The Handmaiden é não deixar tudo no subtexto tão elogiado por alguns cinéfilos, mas sim, apresentar de forma clara e sem cortes que o mundo – independente da época e do lugar – pode ser belo, mas também pode ser cruel, fazendo com que o final apoteótico nos dê um certo sorriso perverso no rosto. Se em Oldboy vemos a saga de um homem em busca de vingança, aqui Park Chan-Wook nos apresenta duas mulheres (vívidas por atrizes maravilhosas) com diferentes pontos de vista e criações distintas, mas que carregam em comum o desejo de ser algo mais, o que acaba tornando este filme uma espécie de aula ao poderio feminino antigo e atual. E que aula!


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