AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Chegada

25 de novembro de 2016 - 12:39 - Flávio Pizzol

Nada melhor do que um pouco de amor, reflexão e ficção científica


a-chegadaficção científica criou, desde o princípio, uma conexão muito forte com o imaginário humano e manteve seu lugar cativo nos diversos campos artísticos. O resultado é uma quantidade gigantesca de obras quase obrigatórias que dividem uma proposta poderosa: direcionar o olhar para o espaço (ou para o futuro) com o objetivo de analisar o presente, o ser humano e os seus dilemas. A Chegada se coloca contra a maré do cinema puramente pipoca, assume suas raízes reflexivas e entrega um estudo emocionante sobre a vida, o universo e tudo mais.

Baseado no conto “Story of Your Life” de Ted Chiang, o novo longa do cultuado Denis Villeneuve (Os Suspeitos e Sicário) situa sua história na mesma chegada dos alienígenas que já resultou em clássicos obrigatórios, como Contatos Imediatos de 3º Grau (1977). Nesse caso, doze naves misteriosas estacionam sobre países distintos e Louise Banks, uma renomada professora de linguística, é convocada pelo exército americano para estabelecer contato e entender as motivações dos nossos temidos visitantes antes que decisões precipitadas mergulhem o planeta em mais uma guerra mundial.

É uma premissa realmente simples e batida dentro do próprio gênero, mas a adaptação conduzida por Eric Heisserer (Quando as Luzes se Apagam) tem muito mais conteúdo do que essa crítica poderia abordar em sete ou oito parágrafos. Preciso admitir que é muito difícil escrever esse texto sem torná-lo complexo demais ou entregar alguma peça importante do desenvolvimento, apesar de também entender que muitos questionamentos podem ganhar mais ou menos espaço dentro da interpretação de cada espectador.

Sem correr grandes riscos, vale dizer que o roteiro aposta em uma abordagem densa e melancólica (desde os primeiros segundos, por sinal) que se desenvolve de forma extremamente lenta, enquanto prende o espectador em uma rede de conceitos relativamente complexos e discussões sobre a vida, o amor, a guerra, a noção de tempo própria do ser humano, o medo do desconhecido e até a importância da comunicação. Um atributo que faz muita falta naqueles momentos (infelizmente, cada vez mais comuns) em que um mísero erro de interpretação gera uma briga na escola ou no trânsito.

Marcado por uma edição fragmentada que brinca com a percepção no tempo durante a trama, o roteiro vai da geopolítica pro interior do ser humano com fluidez, explica todos os seus conceitos – sem cair no didatismo barato – e constrói uma estrutura cíclica que traça paralelos incríveis dentro do filme. Essa estratégia amarra as pontas com inventividade e cria um filme de suspense com proporções mundiais ao mesmo tempo em que promove um mergulho na subjetividade da memória humana sob a perspectiva da protagonista.

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Inclusive, eu acredito que a grande sacada do filme esteja na conexão constante entre os pontos de vista de Louise e do espectador. Não gostar da protagonista pode significar não gostar do filme, porque é o olhar dela que guia o público em todos os instantes, determinando a incidência cada vez maior das já citadas memórias, o corte dos ruídos de uma forma específica ou a prevalência do som abafado que ocupa as caixas de som na primeira visita a nave. Até o próprio posicionamento dos alienígenas do outro lado do vidro funciona como um espelho em relação a presença dos dois cientistas principais.

Essa técnica permite que embarquemos nessa história que, como eu já disse, vai se tornando cada vez mais minimalista e contemplativa em relação as descobertas de Louise Banks. Ela é a âncora emocional do filme e irresistível Amy Adams (Trapaça) brilha em todos os instantes com sua interpretação segura, entregando um olhar sensível e uma presença de cena introspectiva para uma personagem que, mesmo visivelmente abalada pela vida, não esconde sua determinação e escolhe amor em todas as situações.

Apesar de ser o centralizar todas as luzes na protagonista, o restante do elenco funciona como um acompanhamento necessário e até encontra alguns momentos pra brilhar. Jeremy Renner (Missão: Impossível – Nação Secreta) faz um contraponto muito comum entre a comunicação e a ciência sem perder o maravilhamento pelas novas descobertas, Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) cumpre o seu papel de organizador tático das ações e do próprio andamento do filme e Michael Stuhlbarg (Steve Jobs) funciona como o agente do governo que vê a guerra como solução para todos os problemas desconhecidos.

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Enquanto isso, Villeneuve comanda todo o desenvolvimento narrativo com a sua precisão habitual e mistura drama, suspense, política e sci-fi de uma forma genuína, incluindo várias escolhas que sempre enriquecem o filme. É muito interessante prestar atenção nas formas como ele usa a câmera subjetiva na construção da protagonista, brinca com movimentações opostas dentro e fora da nave, insere tensão em momentos comuns do dia-a-dia e opta por ir desvendando o mistério aos poucos para misturar as sensações de surpresa e reflexão. Isso sem contar com as soluções visuais para a mudança de gravidade que funcionam como as cenas de ação contidas nesse contexto.

Mesmo sem nenhum pretensão de mudar o cinema de ficção científica, A Chegada consegue encontrar uma união de outro mundo entre elementos visuais bem pensados, explicações restritas ao necessário, elenco escolhido com perfeição e discussões imateriais que não caberiam nessa crítica. É um filme intenso, emocional e marcante que retoma conceitos clássicos da ficção científica de uma forma pura, brinca com a relação entre língua e tempo, coloca o poder de um amor sem barreiras no cerne das suas discussões e merece ser visto para manter vivas discussões poderosas que nunca deixarão de ser atuais.


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