AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Bruxa

4 de Março de 2016 - 14:00 - Tiago Soares

Candidato a filme de horror do ano, terror tem seu trunfo no poder da sugestão.


A-BRuxaA primeira cena de “A Bruxa” mostra a protagonista extremamente angustiada e através dos olhos dela vemos o que se passa ao redor: Ela assiste ao “julgamento” dos pais, William e Katherine, que levam uma vida cristã com suas cinco crianças, em uma comunidade extremamente religiosa, na Nova Inglaterra, em torno de 1630. Expulsos do local, por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades, a família passa a morar num lugar isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece, e temos o nosso ponto de partida.

O trabalho de direção estreante Robert Eggers beira a perfeição, ele não tem pressa alguma em apresentar personagens, nem o misticismo por trás de tudo, cada frase soa como declamação, cada tomada fala por si. Eggers que também assina o roteiro, traz diálogos ácidos, e questionamentos constantes. Se morrer, vamos para o inferno? Todos nascemos pecadores? Se nascemos pecadores, como alcançar a salvação? A família tem a fé e a religião no seu cerne e não tem medo de mostrar isso. Cada cena é um bombardeio de dúvidas, com respostas menos satisfatórias, pelo menos para nós espectadores, afinal a fé é abstrata.

Mas só o roteiro brilhante de Eggers não segura a trama por si só, ele também consegue arrancar ótimas atuações do seu elenco. Todos, sem exceção, tem seu momento de brilhantismo. William (Ralph Ineson) é o patriarca da família, devoto ao máximo, o incorruptível, mas vulnerável. Katherine (Kate Dickie) a mãe protetora e cuidadosa, é a emoção levada a níveis doentios, ela ama seus filhos, mas não abre mão da sua fé por nada. Os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) aparecem menos, mas o suficiente para deixar você com um pé atrás, afinal eles tem uma certa conexão com o famoso bode presente nos cartazes (acredite, outro em ótima atuação), para se ter uma ideia, até o bebê que some na trama, tem um momento de expressão.

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Harvey Scrimshaw como Caleb, que vive o irmão do meio, tem material suficiente para ter uma atuação perfeita e de dar inveja a muitos atores adultos. Caleb parece ser a razão em meio há tanta fé e devoção as vezes cega, ele se pergunta o porque de estar fazendo algo, ou o porque de sentir aquilo, além de ter cenas que ficarão no imaginário. Mas, Anya Taylor Joy como a irmã mais velha Thomasin, é quem toma as rédeas da produção, em seu primeiro trabalho, a atriz está a vontade, explode em cena quando necessário e ao mesmo tempo tem um olhar de inocência, sofre, enfrenta os pais, e tem uma certa sensualidade. Culpada pelo sumiço do bebê, Anya nos entrega uma atuação de encher os olhos, a empatia pela personagem é gratuita, afinal é a que mais evolui.

A trilha sonora é sucinta e o silêncio predomina na maioria das vezes, o que particularmente me deixou apavorado. A fotografia de Jarin Blaschke é acinzentada e as vezes em tons de sépia, prendendo você dentro do casebre aonde a família vive e na floresta. O filme foi quase todo filmado com luz natural e de velas (no caso das cenas no casebre), afinal uma frase do próprio Eggers afirma: “Você tem que usar apenas luz natural se quiser realmente mostrar como o mundo se parece”.

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Falando nisso, Robert Eggers venceu o prêmio de melhor diretor no Festival de Sundance pelo filme, que foi aclamado pela crítica e o mesmo comandará o remake de Nosferatu. Nos EUA “The Witch”no original, já faturou mais de 20 milhões, para um orçamento de 3,5 milhões.

Sucesso que não deve se repetir no Brasil, afinal, depois disso tudo, aonde está “A Bruxa” do título? Por mais que chegando em seu final, o filme se torne mais pertubador visualmente e menos sugestivo do que vinha sendo, muitos ficarão decepcionados, principalmente aqueles que aguardam um filme de susto qualquer, repleto de jumpscares, e trilha sonora impactante. Se for ao cinema com esse pensamento, esse filme não é pra você. Em minha sessão, muitos saíram no meio do filme, xingaram e reclamaram. Mal sabiam eles que perdiam o poder da sugestão, da metáfora, afinal, “A Bruxa” estava lá o tempo todo, mas não do jeito que você pensa.


Obs 1: Rodrigo Teixeira da RT Features, é o brasileiro produtor do filme, e um dos primeiros a acreditar no projeto.

Obs 2: O filme deixou Stephen King apavorado, e isso não é pouca coisa.


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