AODISSEIA
Filmes

Crítica: A Autópsia

10 de Maio de 2017 - 16:24 - Tiago Soares

Um misto de tensão e decepção


Quem já leu algumas críticas minhas de filmes de terror sabe que exijo muito do gênero – não apenas por ser meu tipo de filme favorito, mas pela importância do mesmo pra uma geração. Os anos 80 e 90 foram o auge do terror, que teve uma queda nos anos 2000 – mesmo tendo raras exceções. O terror parece que sofreu um respiro nesta década, com bons filmes, diretores hoje considerados “especialistas em terror” e produtoras que só produzem o gênero. Parece que estamos diante dos anos 80 novamente (tomara!).

Algo que sempre me incomoda e bato na tecla nos meus textos é o respeito ao espectador. O filme não deve tratá-lo como idiota e muitos menos fazer com que os personagens desafiem nossa capacidade de pensar. O terror sugestivo, aquele que deixa tudo ou a maioria das coisas a nossa imaginação é o que mais me chama atenção. Felizmente, os filmes recentes tem recuperado esse aura, e brincado com nossas perspectivas. A Autópsia faz isso muito bem na sua primeira metade.

O terror conta a história do corpo de uma mulher desconhecida, encontrado em uma cena de um crime – que é apelidada de Jane Doe (título original: The Autopsy of  Jane Doe), algo como “zé ninguém” aqui no Brasil. A mulher é levada para o necrotério que pertence a uma família, onde pai e filho tem a missão de descobrir o que aconteceu com a moça. A partir do momento que começam a realizar a autópsia, coisas estranhas começam a acontecer ao redor deles.

O roteiro de Ian B. Goldberg e Richard Naing é sutil e esperto ao colocar um trauma recente nos dois personagens que carregam a maior parte do filme: a morte da esposa, por conseguinte a mãe. Então, enquanto a autópsia acontece, uma conversa franca entre pai e filho se desenrola, e estreita os laços entre eles. Ao mesmo tempo o diretor André Øvredal não nos omite nada, abusando dos planos detalhe, e utilizando de bastante câmera na mão, pra criar o clima de tensão presente na sala.

 

Aliás, a maior vantagem da produção está justamente no mistério. Ninguém sabe – nem eles, nem nós – o que aconteceu com a moça. O pai Tommy (Brian Cox) e seu filho Austin (Emile Hirsch) conversam sobre o corpo, e convencem, como se já tivessem feito aquilo inúmeras vezes. Uma teoria é sempre sobrepujada por outra, e as certezas vão dando lugar a mais dúvidas sobre o que teria acontecido com a moça. A primeira hora do filme é um primor, trazendo novas questões e mesmo com ambos usando termos médicos, pra justificar alguns fatos na maioria das vezes – o texto não é confuso de maneira nenhuma.

É uma pena que, depois disso, o filme se perca totalmente. Acredito eu que por decisão de algum produtor. Não é possível que André Øvredal e os roteiristas tenham perdido tanto a mão, no que poderia ser um dos melhores filmes de terror do ano. O mistério dá lugar aos clichês, a tensão é substituída pelos jumps scares e as sutilezas no roteiro são substituídas por frases óbvias, trazendo de volta a personagem de Ophelia Lovibond  de maneira desnecessária. É triste perceber que uma produção dessas, que estava unindo o natural ao sobrenatural de maneira coesa, se perca tanto. Esperamos que este ano nos traga mais boas surpresas, e que elas não tropecem em suas próprias pernas.