AODISSEIA
Filmes

Crítica: 50 Tons Mais Escuros

13 de Fevereiro de 2017 - 09:12 - felipehoffmann

A ousadia de atirar para todos os lados e não conseguir acertar nada


Assisti 50 Tons Mais Escuros na pré-estreia, cercado de fãs da franquia. Entendo que não sou o público da série. Não me identifico com a história, porém fui de mente aberta para entender a relação entre os devotos da saga. O clima de pré-estreia é sempre o mesmo com qualquer obra. Aplausos, risos, choro, suspiros. Sinto isso em Star Wars, por exemplo, e entendo perfeitamente a relação deles. Essa paixão sempre vai impressionar, contudo 50 Tons Mais Escuros não consegue ser mais do que uma fraca obra de ficção recheada de problemas, com personagens incoerentes dentro de um roteiro bem mais confuso que não sabe se assume como comédia romântica ou vira um suspense erótico.

A jovem Anastasia Steele (Dakota Johnson) volta a se envolver com o bilionário e dominador Christian Grey (Jamie Dornan). Ele a procura, ela reluta um pouco, mas aceita voltar a vê-lo. As imposições feitas por Ana para retornar o relacionamento aos poucos vão se esvaindo, por iniciativa dela própria. Enquanto a sala soltava risos com alguns diálogos entre os dois, me sentia desconfortável com a situação. O que antes incomodava Anastasia, agora a estimula e isso deixou um tom incoerente dentro dessa postura imperativa de evolução da personagem.

Claro que dentro desse contexto, existe uma outra interpretação. Aquela em que duas pessoas podem se apaixonar, independente de seus status quo. E que elas, juntas, se transformam em prol de algo maior. Tudo bem até aqui, porém, a adaptação de 50 Tons Mais Escuros, dessa vez nas mãos de James Foley (House Of Cards), erra na abordagem desse contexto, fazendo-o de maneira rasa, ancorado numa história bem fraquinha.

Parte disso está na atuação dos personagens. O segundo filme da franquia possui um ar mais sombrio, exigindo mais dos atores. Dakota Jonhson se esforça mas fica presa dentro de suas falas quase sem ar. Sempre suspirando, poucos são os momentos onde ela entona sua voz. Já Jamie Dornan não passa a dramaticidade que o personagem exige. Seus traumas da infância não o afetam como deveria e quando existe um diálogo mais tenso, Jamie esbarra na falta de criatividade do roteiro, soltando um já clássico “Você me ensinou a trepar. Ana me ensinou a amar”.

O sexo também está menos presentes em 50 Tons Mais Escuros. As polêmicas cenas de submissão não aparecem com tanta frequência mas quando há algum romance explícito, elas são mais contidas e cortadas na metade. Fica claro uma preocupação em moderar o teor erótico para diminuir a faixa etária do filme. É bem provável que uma versão estendida seja lançada para o público +18.

50 Tons Mais Escuros ainda é uma obra bem perigosa para seu tempo. Por mais que trabalhe a comédia inconsciente, fica evidente o erro em ressaltar o machismo e a submissão da mulher. Justamente em tempos de vorazes e corretas discussões acerca do empoderamento feminino, o filme escorrega muito nesse quesito, usando a subserviência de forma romantizada, sendo um ponto fora da curva dentro de uma discussão extremamente importante.

Ao final do filme, percebo uma exaltada plateia aplaudindo um cliffhanger pra lá de duvidoso, ao melhor estilo Desolação de Smaug. Os fãs adoraram, como sempre irão, em qualquer tipo de conteúdo. O problema de 50 Tons Mais Escuros nem é ter um enredo mais simples, contudo, a obra falha em não alcançar uma tensão dramática e erra na forma como os personagens são conduzidos. Isso confunde inconscientemente o espectador comum e afrouxa uma história que infelizmente tropeça em suas próprias pernas